domingo, 4 de maio de 2008

'O mundo já era'

Sabe quando todas aquelas previsões de aquecimento global, degelo das calotas polares e de que vamos esturricar sem a proteção da camada de ozônio parecem algo bem razoável, mas meio abstrato, enquanto algo totalmente banal pode fazer com que se pare pra pensar aonde as coisas vão parar?

Foi mais ou menos isso naquele dia de chuva. O meu chapéu - como descobri que chamavam o guarda-chuva em tempos idos - insistia em fechar sobre a minha cabeça de repente, a cada seis ou sete passos, beliscando meu dedo, que teimava em tentar mantê-lo aberto. Claro, afinal, chovia pra burro. Mas também, dane-se, na porta do metrô vai ter alguém vendendo outro guarda-chuva, igual a esse, no mesmo nível de porcaria, pelos mesmos cinco reais. O camelô estava lá, com um pequeno reajuste de um real, dado que "tá mó temporal, né?". Claro, claro. Tudo que queria era um que não se fechasse sobre a minha cabeça. Mas eis que surge o dilema. O que faço com o velho depois? Ele tá inteiro e tudo mais. Só fecha, assim, de repente. Pergunto ao camelô se ele não quer ficar com o guarda-chuva e tentar consertar o pequeno defeito. No que ele responde, entre trocos, moedas e outros clientes molhados: "Eu não quero isso não!". "Mas, moço, não queria jogar fora, dá pra consertar". Decidido: "Moça, isso é descartável. Se preocupa não. O mundo já era".

Com o troco e dois guarda-chuvas na mão, desço as escadas do metrô. Jogar aquele guarda-chuva fora ou não tinha acabado de virar uma questão mundial - ele poderia salvar o planeta. Saltei na estação da Glória. Continuo com os dois guarda-chuvas. Avisto uma lata de lixo e o fim do mundo se aproxima. Tá, agora não. Vou sair da estação. Subo as escadas e nem uma gota de chuva cai do céu. Alguém espera do lado de fora que volte a chover torrencialmente - é outro vendedor de guarda-chuva. Sim, ele decidiria por mim. Aguardo uma cliente detalhista analisar as muitas opções de estampas para o seu futuro guarda-chuva de futuro tão curto. "Ah, esse não, tristinho demais. Precisa de mais cor. Esse aqui talvez... não, chama muita atenção..." Eu não acreditando naquela cena e esperando. "Ah, é esse mesmo, o de bolinhas, gostei. Tira da capinha pra eu testar, moço". O vendedor abre o guarda-chuva. "Ih, dona, tá com defeito esse, não fica aberto, não. Mas peraí que tem outro igual, só é de outra cor". Transação concluída, cliente feliz e o vendedor bem resolvido e desencucado pega o chapéu de bolinhas e - tum! - lata de lixo nele.

domingo, 18 de novembro de 2007

Sinal fechado


"

Olá, como vai?
Eu vou indo, e você, tudo bem?
Tudo bem, eu vou indo, correndo, pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranqüilo, quem sabe...

Quanto tempo, pois é, quanto tempo.

Me perdoe a pressa. "

Paulinho da Viola

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

...



basta olhar pra fora e ver que ninguém mais dorme. é fácil ficar acordado. depende da noite, do pretume dela. ela não poderia ter sido feita pra dormir assim tão calma, afeita a pensamentos longos e demorados. que pedra é essa que convida a deitar enquanto não se sabe muito bem aonde isso pode levar? que cor indefinida. que luz.

luz pouca e rala.

domingo, 2 de setembro de 2007

de niterói para casa



voltando da parada gay de niterói, a vista pôde parar pra descansar.
no rosa.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

diololanda

hoje conheci a dona diolanda.

dona diolanda mora em campo grande.
dona diolanda tem uns 320 cachorros.
dona diolanda dorme num beliche.
dona diolanda não tem mesa, sofá, atenção.

dona diolanda vacina, beija, abilola.
dona diolanda tem longos cabelos grisalhos.
dona diolanda gasta 108 quilos de ração por dia.

dona diolanda tem olhos bons de olhar.
dona diolanda é mordida, lambida, adorada.
dona diolanda ama. ama. ama.

diolanda perdeu o marido há 15 anos.
diolanda encheu a casa.
diolanda se encheu.
diolanda encheu, cheu, cheu.
diolanda
diolanda
iolanda
olanda
landa
anda, mal anda
ela anda, mal anda
nda, nada
não é nada
nada
da
a

.

quisera eu


foto: pedro meyer

domingo, 19 de agosto de 2007