Sabe quando todas aquelas previsões de aquecimento global, degelo das calotas polares e de que vamos esturricar sem a proteção da camada de ozônio parecem algo bem razoável, mas meio abstrato, enquanto algo totalmente banal pode fazer com que se pare pra pensar aonde as coisas vão parar?
Foi mais ou menos isso naquele dia de chuva. O meu chapéu - como descobri que chamavam o guarda-chuva em tempos idos - insistia em fechar sobre a minha cabeça de repente, a cada seis ou sete passos, beliscando meu dedo, que teimava em tentar mantê-lo aberto. Claro, afinal, chovia pra burro. Mas também, dane-se, na porta do metrô vai ter alguém vendendo outro guarda-chuva, igual a esse, no mesmo nível de porcaria, pelos mesmos cinco reais. O camelô estava lá, com um pequeno reajuste de um real, dado que "tá mó temporal, né?". Claro, claro. Tudo que queria era um que não se fechasse sobre a minha cabeça. Mas eis que surge o dilema. O que faço com o velho depois? Ele tá inteiro e tudo mais. Só fecha, assim, de repente. Pergunto ao camelô se ele não quer ficar com o guarda-chuva e tentar consertar o pequeno defeito. No que ele responde, entre trocos, moedas e outros clientes molhados: "Eu não quero isso não!". "Mas, moço, não queria jogar fora, dá pra consertar". Decidido: "Moça, isso é descartável. Se preocupa não. O mundo já era".
Com o troco e dois guarda-chuvas na mão, desço as escadas do metrô. Jogar aquele guarda-chuva fora ou não tinha acabado de virar uma questão mundial - ele poderia salvar o planeta. Saltei na estação da Glória. Continuo com os dois guarda-chuvas. Avisto uma lata de lixo e o fim do mundo se aproxima. Tá, agora não. Vou sair da estação. Subo as escadas e nem uma gota de chuva cai do céu. Alguém espera do lado de fora que volte a chover torrencialmente - é outro vendedor de guarda-chuva. Sim, ele decidiria por mim. Aguardo uma cliente detalhista analisar as muitas opções de estampas para o seu futuro guarda-chuva de futuro tão curto. "Ah, esse não, tristinho demais. Precisa de mais cor. Esse aqui talvez... não, chama muita atenção..." Eu não acreditando naquela cena e esperando. "Ah, é esse mesmo, o de bolinhas, gostei. Tira da capinha pra eu testar, moço". O vendedor abre o guarda-chuva. "Ih, dona, tá com defeito esse, não fica aberto, não. Mas peraí que tem outro igual, só é de outra cor". Transação concluída, cliente feliz e o vendedor bem resolvido e desencucado pega o chapéu de bolinhas e - tum! - lata de lixo nele.
domingo, 4 de maio de 2008
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